Razão e emoção
A razão e a emoção devem colaborar um com
outro para que você viva bem. Não há vida boa sem amor e não há vida boa sem
bom discernimento para encontrar o nosso lugar que permita essa emoção. A vida
boa é a vida feliz e a razão é um meio privilegiado para alcançá-la.
Epicuro diz que a vida boa é a vida no
prazer. “Aí sim, isso mesmo! Esse é dos nossos”! Só que o prazer de Epicuro é o
prazer pelo simples. Quanto mais sofisticada for a sua vida, mais você
prostitui o corpo e menos possível será o prazer pelo simples. “Você vai comer só pão seco assim sem nada? O senhor
come arroz puro? Não quer um molho Cury temperado com lágrimas de castor da Mandíbia?
É super sofisticado.”
A razão deve nos permitir um estilo de
vida de continuar para sempre tendo prazer com coisas simples.
Se você quiser chamar de alma a atividade
pensante do corpo, pode chamar, mas quem pensa é o corpo. Então o pensamento
obedece à mesma lógica dos afetos e dos sentimentos. Ou seja, eu penso porque
eu sinto e eu sinto porque eu penso. Pensamento e sentimento um é causa do
outro.
O que é a sensação? A sensação é uma
interpretação que o teu corpo dá para oscilação na energia vital. Então as sensações
são interpretações diferentes para uma senóide de potência de existência.
Então as sensações e o pensamento são
apenas manifestações diferentes do mesmo corpo. Atividade intelectiva do corpo
é inseparável das alegrias e tristezas.
David vai mais longe. Escreve o texto “a
razão é escrava das paixões”. O que são as paixões? Manifestação da oscilação
da energia. Dor é queda de potência setorizada. E a alegria de um pedaço do
corpo chama excitação.
De um lado o tesão do outro lado a razão. Hora
ganha a emoção e você come o bolo de chocolate inteiro, hora ganha a razão e você
vive uma vida escrota e magra. O sentimento é a energia e a razão é a atividade
do corpo como qualquer outra que precisa de energia para acontecer.
Para que os sentimentos sejam os melhores
possíveis então para a razão funcionar é necessária energia vital.
Mas eu sei? Porque fui a um SPA. Eu não
conseguia nem ler um livro de fácil leitura. Pela queda de energia diminuiu a
minha razão. Então como pode a razão que precisam da energia enfrentar as
sensações? Eles não competem. Elas são são da mesma natureza. A razão nada mais
é do que um atributo humano privilegiado para permitir que as sensações sejam
as melhores possíveis. É só isso.
A razão vai permitir que você encontre uma
justificativa para os afetos que seja aceitável por você - questão moral - e pelos outros questão ética. Mas o tesão é
soberano e a razão é um instrumento para tornar o seu tesão aceitável porque
nem sempre o seu tesão é aceitável.
Então a minha professora de natação, em um
ano eu não passei a mão na bunda dela. Isso é a prova de que a razão vence o
afeto? Porque se a razão fosse uma maneira de permitires sensações boas ela
teria que ter dado um jeito de eu ter passado a mão na bunda da professora. Eu
juro que ela tentou mas eu não passei a mão e porquê não passei? Porque os afetos
são vetores nem sempre alinhados. Do mesmo jeito que eu tinha tesão que me
levava ao toque glúteo, eu tinha medo.
O medo é um afeto que não nos desacompanha.
O medo te acompanhará. Desde criança, desde recém-nascido. Nós aprendemos a
perceber que nem toda nossa energia é aceita, nem todo desejo é satisfeito, nem
toda alegria é possível e portanto aprendemos rapidinho a ter medo. É por isso
que o medo venceu o tesão.
E o estuprador? É quando o tesão vence o
medo. Pode ser por um erro civilizatório. Aí a vitória do tesão leva a uma
decisão racional no sentido do estupro. A razão está a serviço dos afetos. A razão
sempre delibera em função da energia vital. Porque nós somos um todo. E a
nossa razão é obviamente entrosada e harmônica com as nossas
equações afetivas. É por isso que a razão é escrava dos afetos.
Instrumento dos afetos, está à serviço dos
afetos para que possamos viver da melhor forma possível. Porque ela é tão
importante? É porque através dela sabemos o poder lesivo da sociedade sobre nós,
toda a tristeza que a sociedade pode nos atingir, coisa que ela sabe fazer
muito bem. Por isso não damos vazão a todos os nossos tesões.
E o goleiro Bruno? É um desvio dele? Não.
É um desvio civilizatório porque se bruno tivesse tido mais medo nas conseqüências
dos seus gestos como sendo inevitável, o medo teria o impedido. Ele vislumbrou
a possibilidade de ser livre de um problema portanto se alegrar e não ter
punição portanto não se entristecer. Errou no cálculo.
É nós que não desossamos ninguém? É porque
aparentemente aprendemos a ter medo o suficiente para não fazer isso.
David Hill: Então dentro desta filosofia
dos desejos é a primeira vez que o homem aceita que não pode ter controle sobre
a própria vida, porque ele não tem controle sobre os afetos e a razão está à
mercê de afetos que ele não controla. O homem não é senhor em si mesmo.


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