quinta-feira, 7 de julho de 2016

Razão e emoção

A razão e a emoção devem colaborar um com outro para que você viva bem. Não há vida boa sem amor e não há vida boa sem bom discernimento para encontrar o nosso lugar que permita essa emoção. A vida boa é a vida feliz e a razão é um meio privilegiado para alcançá-la.
Epicuro diz que a vida boa é a vida no prazer. “Aí sim, isso mesmo! Esse é dos nossos”! Só que o prazer de Epicuro é o prazer pelo simples. Quanto mais sofisticada for a sua vida, mais você prostitui o corpo e menos possível será o prazer pelo simples.  “Você vai comer só pão seco assim sem nada? O senhor come arroz puro? Não quer um molho Cury temperado com lágrimas de castor da Mandíbia? É super sofisticado.”
A razão deve nos permitir um estilo de vida de continuar para sempre tendo prazer com coisas simples.
Se você quiser chamar de alma a atividade pensante do corpo, pode chamar, mas quem pensa é o corpo. Então o pensamento obedece à mesma lógica dos afetos e dos sentimentos. Ou seja, eu penso porque eu sinto e eu sinto porque eu penso. Pensamento e sentimento um é causa do outro.
O que é a sensação? A sensação é uma interpretação que o teu corpo dá para oscilação na energia vital. Então as sensações são interpretações diferentes para uma senóide de potência de existência.
Então as sensações e o pensamento são apenas manifestações diferentes do mesmo corpo. Atividade intelectiva do corpo é inseparável das alegrias e tristezas.
David vai mais longe. Escreve o texto “a razão é escrava das paixões”. O que são as paixões? Manifestação da oscilação da energia. Dor é queda de potência setorizada. E a alegria de um pedaço do corpo chama excitação.
De um lado o tesão do outro lado a razão. Hora ganha a emoção e você come o bolo de chocolate inteiro, hora ganha a razão e você vive uma vida escrota e magra. O sentimento é a energia e a razão é a atividade do corpo  como qualquer outra que precisa de energia para acontecer.
Para que os sentimentos sejam os melhores possíveis então para a razão funcionar é necessária energia vital.
Mas eu sei? Porque fui a um SPA. Eu não conseguia nem ler um livro de fácil leitura. Pela queda de energia diminuiu a minha razão. Então como pode a razão que precisam da energia enfrentar as sensações? Eles não competem. Elas são são da mesma natureza. A razão nada mais é do que um atributo humano privilegiado para permitir que as sensações sejam as melhores possíveis. É só isso.
A razão vai permitir que você encontre uma justificativa para os afetos que seja aceitável por você -  questão moral -  e pelos outros questão ética. Mas o tesão é soberano e a razão é um instrumento para tornar o seu tesão aceitável porque nem sempre o seu tesão é aceitável.
Então a minha professora de natação, em um ano eu não passei a mão na bunda dela. Isso é a prova de que a razão vence o afeto? Porque se a razão fosse uma maneira de permitires sensações boas ela teria que ter dado um jeito de eu ter passado a mão na bunda da professora. Eu juro que ela tentou mas eu não passei a mão e porquê não passei? Porque os afetos são vetores nem sempre alinhados. Do mesmo jeito que eu tinha tesão que me levava ao toque glúteo, eu tinha medo.
O medo é um afeto que não nos desacompanha. O medo te acompanhará. Desde criança, desde recém-nascido. Nós aprendemos a perceber que nem toda nossa energia é aceita, nem todo desejo é satisfeito, nem toda alegria é possível e portanto aprendemos rapidinho a ter medo. É por isso que o medo venceu o tesão.

E o estuprador? É quando o tesão vence o medo. Pode ser por um erro civilizatório. Aí a vitória do tesão leva a uma decisão racional no sentido do estupro. A razão está a serviço dos afetos. A razão sempre delibera em função da energia vital. Porque nós somos um todo. E a nossa razão é obviamente entrosada e harmônica  com as nossas equações  afetivas. É por isso que a razão é escrava dos afetos.
Instrumento dos afetos, está à serviço dos afetos para que possamos viver da melhor forma possível. Porque ela é tão importante? É porque através dela sabemos o poder lesivo da sociedade sobre nós, toda a tristeza que a sociedade pode nos atingir, coisa que ela sabe fazer muito bem. Por isso não damos vazão a todos os nossos tesões.
E o goleiro Bruno? É um desvio dele? Não. É um desvio  civilizatório porque se bruno tivesse tido mais medo nas conseqüências dos seus gestos como sendo inevitável, o medo teria o impedido. Ele vislumbrou a possibilidade de ser livre de um problema portanto se alegrar e não ter punição portanto não se entristecer.  Errou no cálculo.
É nós que não desossamos ninguém? É porque aparentemente aprendemos a ter medo o suficiente para não fazer isso.

David Hill: Então dentro desta filosofia dos desejos é a primeira vez que o homem aceita que não pode ter controle sobre a própria vida, porque ele não tem controle sobre os afetos e a razão está à mercê de afetos que ele não controla. O homem não é senhor em si mesmo.

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